MÃOS E OMBROS

O pequeno animal veio, lentamente, caminhando para meu lado. Parecia velho amigo; ou me confundiu com alguém muito familiar. Pensei não ter me percebido, e continuei parado. Sabia que a qualquer momento se assustaria e sairia, em disparada, para o lado que o nariz apontasse. Que nada! Continuou a caminhar em minha direção, cada vez mais próximo. Quando alcançou minha sombra, parou. Pude observar que sua respiração era ofegante, e seus olhos, diminutos. Movimentou a cabeça, inspirou o ar, mais acentuadamente, e permaneceu parado. Dei um passo à frente, e ele permaneceu imóvel. Conclui que não passava bem. Deveria estar machucado; ou com doença de tatu. Por que um bicho, silvestre, não foge de um ser humano, se entre os próprios Homo sapiens a desconfiança é recíproca? Não sei por que, mas a situação me fez lembrar o saudoso Manezinho. O amigo, falecido também, apesar da racionalidade, tinha comportamento semelhante. Quando familiares ou vizinhos o deixavam contrariado, começava a andar por ai, sem se dar conta de nada. Comportava-se como um ser que busca o que não existe.

Não tive dúvida. Aquele Tolypeutes estava com alguma anomalia ou gravemente ferido. Resolvi apanhá-lo, para melhor observar. Segurei-o pelo dorso e, contrariando minhas expectativas, ele não esboçou reação. Levantei-o, com o ventre para cima, e ele me pareceu gostar de ficar no alto, com as patas ao vento. Fiz carinho em seu casco, mas o grosso tegumento não permitiu que percebesse. Então, rocei as pontas dos dedos na pele da barriga. Fechou mais ainda seus olhinhos. Será que sua residência se encontrava na redondeza? Talvez. Pode ser que, ao adentrar em sua casa, tenha encontrado uma serpente, que o picara. Poderia ser uma jararaca, uma cascavel… Mas, onde atingir um tatu? No dorso, impossível. Observei toda a região ventral, onde a pele é menos espessa. Nenhum sinal de picada. Manezinho, falecido amigo e companheiro, também sempre saía à deriva, quando encontrava alguma irregularidade em seu barraco. “Estou contrariado… encontrei um desmantelo lá em casa”, dizia. Será que ele era frequentemente picado por serpentes?

Talvez, a chuva do dia anterior tenha enchido seu ninho de água, e agora não havia como utilizá-lo. Mas, certamente isto não acontecera. Tatu é um bicho estrategista e, ao escolher o local de seu ninho, eliminaria qualquer possibilidade de ser importunado por tempestades. Previsões à parte. O bichinho estava carente de afeto ou de mãos amigas; os ombros de tatu escondem-se sob o casco. Mas, um tatu troca seu lar por mãos alheias? O Manezinho trocava sua, conturbada, família por ombros estranhos. Em sua timidez e seu silêncio, constantes, quando muito importunado abandonava seu muquiço e procurava uma alma amiga. Em sua objetividade, com poucas palavras, expunha tudo que lhe aperreava. “Assim não adianta, Companheiro! Tem que sair daquele buraco, e procurar outras pessoas…” Era o conselho que sempre recebia. Para os amigos, Manezinho era um tatu. Quando lhe permitiam, vivia quase sempre em casa, ou como ele dizia, dentro de sua “loca”.

Coloquei o bichinho sobre a grama. Ficou estático. Depois, afastou-se meio metro. Como um engenheiro que procura localizar a mira, certamente pela imagem e o odor que um ser vivo exala, tentou enxergar meu rosto. Contudo, não passou de tentativa. Um tatu não levanta a cabeça a uma altura que lhe permita ver a face de uma pessoa adulta. Afastei-me um pouco, para diminuir o ângulo de sua visão. Não resolveu, e ele continuou a se esforçar, cada vez mais. Então, achei por bem ficar de cócoras. Foi bom, ele se aproximou e, com seu nariz, funguento, inspirou meu cheiro. Será que imaginava ser eu um membro de sua família? Pode ser. O Manezinho, quando em parafuso, não fazia nenhuma distinção entre amigo ou não. Aliás, tinha preferência por desabafar-se em ombros de estranhos ou com Tupy, seu vira-lata de estimação; como comentava frequentemente. Seria eu o velho cachorro do pequeno tatu?

Senti que não poderia me afastar e deixar o novo amigo, sem proteção. Poderia levá-lo e, em minha casa, arranjar um lugar para o diminuto animal. Não, esta ideia não daria certo. Em minha casa, há diversas espécies de animais, que acabariam matando o infeliz desamparado. Apanhei o bichinho e comecei a andar ao redor, em um raio de cinquenta metros, a fim de encontrar uma morada de tatu. Encontrei apenas uma, mas não a de meu novo companheiro. O buraco tinha um diâmetro bem maior, e estava meio que abandonado. Coloquei o amigo na grama, e me afastei. Ele tentou me acompanhar. Aumentei as passadas, e ele tentou correr. Parei, e ele chegou bem próximo de mim. Lembrei-me da noite em que encontrei o amigo Manezinho, embriagado, tentando voltar para seu muquiço. Levei o silencioso companheiro a seu barraco. Bati, e uma senhora, de expressão de pouca receptividade, recebeu-nos. Olhou, analisou o esposo. Como uma serpente olha para uma presa doente, fechou a porta. Reabriu e, pela fresta, certificou-se do quadro, ali desenhado. Trancou novamente a porta, e eu fiquei lá fora, sustentando o desvairado Manezinho. Levei meu velho companheiro para meu ninho, e lá nenhum outro bicho estranhou meu amigo.

Situação embaraçosa. O tatu não procurava seu ninho, e se eu me afastasse, ele tentaria me acompanhar. Que Manezinho é este? Encontrava-me bastante preocupado. Sem pedir a ninguém, tinha, sob minha responsabilidade, um dependente, silvestre. Se eu me afastasse, correndo, não conseguiria me acompanhar, e assim me livraria do amigo, cascudo. Mas, esta atitude é racional? Não. É covarde. Como alguém tem coragem de deixar um amigo, indefeso, totalmente à mercê da sorte? O que eu faria se, em vez do tatuzinho, tivesse encontrado meu amigo Manezinho? Levá-lo-ia para uma sombra, assentaríamos e aguardaríamos o tempo mostrar uma saída. Foi o que fiz. Peguei o animal, pelo casco, e procurei a sombra de um guatambu. Coloquei-o na areia, fresca, e assentei-me a seu lado. Fiquei a observar suas atitudes. Andou, em um círculo de um metro, cheirou a areia e meus pés, várias vezes. Depois, como se tudo estivesse normal, repousou o ventre sobre a areia, piscou, algumas vezes, na tentativa de ficar acordado, até dormir; tal qual Manezinho.

Fiquei a observar meu novo amigo… Comparei-o a meu, saudoso, companheiro. O tatu tem dois locais para esconder-se: debaixo do casco e dentro de um buraco; mas não tem ombros. O pobre Manezinho que, apesar de seus dois ombros, nunca teve um casco, e, apesar de ter uma loca, certamente se encontrava com largo diâmetro e repleta de predadores de alma. Assim, em uma procura, interminável, meu amigo buscava ombros, estranhos, para se esconder das intempéries humanas.

Fiquei a pensar… Será que me aproximo mais de um Manezinho ou de um tatu-bola? Certamente, um pouco de cada…

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